“Ouvi, Senhor, a tua palavra e temi; aviva, ó Senhor, a tua obra no decorrer dos anos; no decorrer dos anos faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia.” (Habacuque 3.2)
Ao refletirmos sobre a saúde espiritual da igreja contemporânea, torna-se inevitável abordar o delicado equilíbrio entre doutrina sólida e espiritualidade contagiante. No livro Realce as cores de seu mundo, dentro do contexto do Desenvolvimento Natural da Igreja, Christian A. Schwarz apresenta um dado surpreendente: na Coreia do Sul — frequentemente lembrada como um grande celeiro de avivamento e missões — a espiritualidade contagiante aparece entre os índices mais baixos de qualidade em muitas igrejas. Esse diagnóstico causa espanto. Afinal, o que aconteceu com aquela igreja vibrante, que por décadas inspirou cristãos ao redor do mundo? A análise de Schwarz lança luz sobre essa questão ao revelar que, em muitos casos, houve uma pressão excessiva sobre os membros. Líderes e congregações passaram a viver sob cobranças constantes, metas rígidas e expectativas inalcançáveis. O resultado foi o esgotamento espiritual, o surgimento de tendências legalistas e uma fé vivida mais por obrigação do que por alegria. Diante desse cenário, Schwarz afirma que as igrejas saudáveis são aquelas que conseguem manter um equilíbrio espiritual saudável entre dar e receber. Nelas, os crentes vibram com sua fé de maneira espontânea e natural. Não se trata de entusiasmo produzido artificialmente, nem de emoção forçada, mas de uma fé viva, que brota de um relacionamento genuíno com Deus e se expressa com dedicação e alegria.
As evidências levantadas por Schwarz mostram que as igrejas que mais crescem no mundo não são, necessariamente, aquelas com o estilo mais moderno ou mais tradicional. O fator determinante não é se o culto é mais avivado ou mais conservador, nem se é mais voltado aos visitantes ou aos membros. O que realmente faz diferença é se os crentes vivem sua fé com paixão, entusiasmo e compromisso. Nesse sentido, ecoam as palavras do apóstolo Paulo: “No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor” (Romanos 12.11). Em igrejas onde essa espiritualidade é cultivada, o amor a Deus transborda para as atitudes diárias. O serviço cristão deixa de ser um peso e se torna um testemunho que desperta a atenção daqueles que estão de fora. Contudo, Schwarz faz um alerta importante: por mais ortodoxa que seja a doutrina de uma igreja, e por melhor que seja seu conhecimento bíblico, dificilmente haverá crescimento verdadeiro se a fé não for vivida e transmitida com entusiasmo contagiante. Quando a luta pela doutrina correta ocupa o lugar de uma vivência apaixonada da fé em Jesus, corre-se o risco de adotar um paradigma equivocado. Nesse solo, o que cresce não é uma espiritualidade saudável, mas, muitas vezes, um fanatismo deformado. A paixão libertadora do evangelho não sobrevive onde falta amor, graça e relacionamento. Por isso, a expressão “espiritualidade contagiante” traduz de forma tão bela uma verdade essencial à teologia cristã: a fé é, antes de tudo, um encontro real com Jesus Cristo. É fundamental compreender que a boa doutrina não anula a fé contagiante. Pelo contrário, ela a sustenta. Entretanto, a doutrina, por si só, não a produz. Para que a fé seja viva e contagiante, algumas práticas simples e consistentes podem ser cultivadas: buscar diariamente aprender algo novo de Deus; ler a Bíblia com mais zelo e compartilhar com amigos e familiares aquilo que o Senhor tem ensinado; participar regularmente de grupos de oração, lembrando que a oração coletiva complementa — e não substitui — a oração individual. Além disso, é saudável ler biografias de homens e mulheres que andaram intimamente com Deus, pois seus testemunhos inspiram e fortalecem a fé. Ouvir e cantar músicas que exaltam ao Senhor, frequentar a igreja com regularidade e permitir que Deus use cada pessoa e cada programação para edificação pessoal também são caminhos importantes. Por fim, nunca devemos nos esquecer de que Deus é a fonte principal da nossa fé. Jesus nos convida a beber dessa fonte quando declara: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (João 7.38). Quanto mais amarmos a Deus, quanto mais o buscarmos em oração e quanto mais o conhecermos por meio de sua Palavra, mais viva e contagiante será a nossa fé. Que as pessoas ao nosso redor sintam fome e sede de Deus ao observarem em nós uma fé relevante, transformadora e cheia de vida. E que, como igreja, possamos orar mais, cantar mais, compartilhar mais e testemunhar mais. Somos o povo do céu na terra, chamados a manifestar os sinais da nossa verdadeira cidadania. Somos o bom perfume de Cristo e, por meio dEle, somos conduzidos em triunfo.
